24 de mar. de 2007

Sociólogo se dedica a destruir crenças sobre alimentação


Como uma espécie de seqüência desse inventário de pavores, o sociólogo agora se dedica a destruir as principais crenças do senso comum sobre a alimentação. Alguns dos pontos nos quais centra fogo são, segundo escreve, a reverência com que são recebidos estudos que promovem esse ou aquele alimento, a conseqüente glorificação de certas comidas e modos de produção, a associação que se faz entre alimentos tidos como naturais e saúde, a relação entre obesidade e aumento de mortalidade e a adesão impensada a produtos dietéticos.Quanto aos artigos de baixas calorias, Priscila Barsanti de Paula, nutricionista do hospital Albert Einstein, em São Paulo, concorda: "Um alimento diet não é necessariamente light. Muitas vezes, esse tipo de alimento pode conter até mais calorias se comparado a um light ou a um convencional", explica.O diretor da Associação Brasileira de Nutrologia, Edson Credidio, endossa: "Nem tudo o que é light, diet, orgânico, 'fat free' etc. é saudável e, além disso, pode fazer mal à saúde quando utilizado sem a orientação de um profissional".
Celel Teber/Stockxpert
Segundo Glasner, o fast food não pode ser considerado vilão se consumido às vezesO nutrólogo também faz coro com o sociólogo ao recomendar cautela quanto à sucessão de descobertas que povoam o universo alimentar. "Alguns estudos são suspeitos, muitas vezes encomendados e, por isso, efêmeros e com cunho comercial."Mas, se para Glassner há muita ênfase na obesidade e pouca atenção sobre outros fatores de risco à saúde, os especialistas ouvidos pela Folha rechaçam essa visão e relembram a gravidade do problema."O Brasil está passando por uma transição nutricional. Estamos deixando de ser desnutridos para ser obesos. O problema da obesidade é real", afirma o endocrinologista Henrique Suplicy, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).Ele diz, no entanto, que é preciso ter cautela na hora de aderir a dietas. "O que existe também é que você entra em um site como a Amazon, digita 'dieta' e aparecem quase 3.000 títulos de livros de dietas hipocalóricas, com cada autor inventando a sua. É um absurdo."Edson Credidio alerta que a obesidade traz riscos. "Tem de ser dada toda a atenção à obesidade, porque ela provoca a síndrome plurimetabólica, que leva a hipertensão arterial, diabetes, infarto, derrame e câncer. Os obesos têm grande tendência à morte súbita."Priscila Barsanti de Paula lembra que o fenômeno se tornou uma epidemia: "Desde 1991, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a obesidade uma doença com dimensões assustadoras. Nos EUA, cerca de 65% dos adultos têm excesso de peso; no Brasil, cerca de 40%. Os índices de gordura populacional vêm aumentando em ritmo acelerado. Tornou-se uma epidemia".Prazer e realismoAlém de relativizar os benefícios do que hoje é visto como saudável, Glassner dedica muitos parágrafos a questionar os fundamentos das críticas destinadas a locais como McDonald's e Burger King. Qualifica de exercício de "esnobismo" torcer o nariz para as redes de fast-food e advogar a superioridade de produtos "frescos" ou de uma culinária "autêntica", confrontando vários fatos e fantasias relacionados a esses conceitos."Se a pessoa tem um hábito alimentar saudável, não há risco em lanchar, eventualmente, em um fast-food. O que não deve acontecer é a substituição das refeições pelos lanches", pondera Barsanti.Não se trata de comer indiscriminadamente e sem limites, repete Glassner ao longo de seu "evangelho", mas de cuidar para não embarcar em privações injustificadas. Diz ele no livro: "Mais do que deixar que nosso paladar seja nosso guia, permitimos que os outros nos digam o que comer e como pensar sobre o que comemos. Apenas se reconhecermos os mitos, meias-verdades e processos de culpa envolvidos no que e onde comemos é que poderemos começar a desfrutar de maior prazer e realismo à mesa".




"The Gospel of Food: Everything You Think You Know about Food is Wrong", de Barry Glassner; ed. Ecco; 304 págs.

Obesidade pode antecipar puberdade de meninas, diz estudo




Como já tinha dito antes, o De dentro não é pra glorificar a obesidade. A idéia aqui é mostrar exageros, denûnciar doenças mas, principalmente firmar a idéia de que o problema não é a forma de cada uma de nós mas sim o que está por trás dela.

A incidência de obesidade infantil está aumentando
Meninas obesas aos três anos de idade correm o risco de atingir a puberdade aos já nove anos de idade, sugeriu estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Segundo a publicação especializada Pediatrics, a pesquisa reforça o crescente volume de evidências que sugerem que obesidade infantil está causando uma tendência à puberdade prematura em meninas.
Estudos sugerem que meninas que atingem a puberdade mais cedo do que o "normal", aos dez anos ou mais, também começam a consumir bebidas alcoólicas e a iniciar sua vida sexual mais cedo.
Especialistas britânicos dizem que puberdade mais cedo pode causar preocupação significativa em meninas. Segundo eles, há ainda um risco maior do desenvolvimento de determinados tipos de câncer, como o de mama.
Das 354 meninas acompanhadas no estudo dos três aos 12 anos, quase a metade - 168 - demonstraram sinais de puberdade, como o desenvolvimento de seios, aos nove anos.
Várias destas meninas têm alto índice de massa corporal (IMC) durante toda a infância. O IMC é adotado pela Organização Mundial de Saúde para o cálculo do peso ideal de cada indivíduo e é calculado dividindo o peso pela altura ao quadrado.
O estudo da Universidade de Michigan se segue a um outro, de 2000, da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, que sugeriu que uma em cada seis meninas pesquisadas atingiu a puberdade antes dos oito anos de idade - 18 meses antes da chegada à puberdade de suas mães.
Uma teoria é de que a puberdade é iniciada pelo hormônio leptina, produzido por tecido adiposo.
Joyce Lee, líder da pesquisa de Michigan disse que "estudos prévios constataram que meninas que tiveam puberdade mais cedo tendem a ter índice de massa corporal mais alto, mas não está claro se a puberdade levou ao aumento de peso ou se o aumento de peso é que levou à antecipação da puberdade".
"Nosso estudo oferece evidências da segunda (opção)."
Pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, estão investigando se animais que são superalimentados produzem mais hormônios sexuais masculinos e femininos que levam à puberdade.
Helen Crocker, pesquisadora do University College de Londres, disse: "Em nossas clínicas vimos meninas de sete, oito e nove anos que estão iniciando sua menstruação e atravessando a puberdade. Isso pode ser bem perturbador para elas".
"É mais uma razão para se levar à sério o problema da obesidade infantil".

23 de mar. de 2007

Rita Lee diz tudo



Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da
vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem. Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa. Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres? Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de facaria, provocaram em muitas outras mulheres as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composto de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo. Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência. É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações. "Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é bunda."

22 de mar. de 2007

Perigosamente Lisa


Dona de casa morre após fazer escova progressiva

Hoje pela manhã me deparei com esta manchete no Jornal Zero Hora!
Claro que eu sei que o formol não faz bem pra saúde... etc e tal. Entretanto, é inegável a difereça que fez na vida de milhares de mulheres a adorada escova progressiva. Eu, ao menos, sou uma outra pessoa depois dela. AEP/DEP TOTAL!!!! Não fico mais tensa quando tenho compromissos de última hora, não gasto horas com secadores e salões de beleza e, pricipalmente, não durmo mais como princesa e acordo com cara de rei leão!












olha eu aí em cima crespa, crespa e sem progressiva!

Momentos...

Depois da minha cirurgia no estomago, fiquei com o corpinho ótimo e o cabelo péssimo. Naquele tempo, foi como se tivesse dado a louca no meu metablismo. Meus cabelos literalmente despencavam cabeça abaixo, era uma peruca perdidada por banho tomado. Me sentia a última das criaturas... Como sempre tive uma cabeleira do tipo ótemaaaaaaaa, não podia acreditar no que estava acontecendo. O cabelo foi ficando fininho, pouquinho e ruim. E eu, triste e deprimida. Aí veio a solução: durante cinco anos usei o tal do Mega Hair pra dar volume, esconder as falhas e recuperar a auto-estima. Deu certo!

Eu e minha mãe no auge do MEGA!!!!!!!

Passada a sindrome de gostosa das oito, porque vamos combinar, né, todas essas atrizes usam cabelo fake! Todas as que tem cabelão, pode estar certa: usam Mega!!!!!!! Não vejo problema, assumo que usava e que gostava. O que não dá, é pra ficar em casa assistindo TV e sonhando com os cachos da Winits ou da Lima e achando que elas nasceram abençoadas por Deus e você não. Elas usam, e acredito, devem adorar também. Mas atenção: as mechas podem cair. Com mega isso é muito comum. Quando ainda usava os meus tufos loiros, um deles caiu em pleno saguão do Festival de Cinema de Gramado. Empurrei, discretamente, pro lado com o pé... naquela noite dei muita risada do ocorrido, mas não me livrei do mico!!!! Emfim, se você quiser cabelão de barbie instantâneo, se toca pra um salão e coloca os seus. Se alguém notar a diferença e pergutar se são seus de verdade, faça como eu fazia: São sim e eu paguei bem caro por eles! Fim de conversa.

Mas voltando à progressiva.. fui falando e me passei. Depois de tirar o Mega, o que salvou o meu cabelo foi a progressiva. Comecei fazendo Mega e escova progressiva com a Cris do Phoenix, guria descolada que sempre está de olho nas novas tecnicas capilares. Hoje - foto aí do perfil- só quem toca no meu cabelo é a Giovana do Studio A em Porto Alegre. Meu cabelo é outro. A cor é mais natural, o fio mais sedoso, estou sempre lisa e o comprimento muito mais generoso. Enfim, se a tal dona de casa morreu mesmo de progressiva, foi uma fatalidade e um amadorismo de quem fez. Tenha sempre uma pessoa competente para cuidar do seu cabelo. Aí, tenho certeza que não vai acontecer nada além de você ficar lisa e linda!

Segue matéria:

Polícia acredita que formol misturado a cremes foi responsável pela morte da mulher em salão de Goiânia

A promessa de cabelos lisos pode ter causado a morte da dona de casa Maria Eni da Silva, 33 anos, três dias após aplicar formol misturado a cremes no cabelo, pelo método da escova progressiva. A mistura alisante foi aplicada em um salão de beleza da cidade de Porangatu, a 426 quilômetros de Goiânia (GO). Segundo parentes da vítima e a Polícia Civil, bastou uma aplicação para a mistura fazer estragos no couro cabeludo. - O irmão dela disse no depoimento que, antes de ser internada, Maria Eni sentiu coceiras, depois fortes dores de cabeça e falta de ar. Há indicações de manifestações alérgicas e mesmo de intoxicação, mas desconhecemos a causa da morte - disse a delegada Cinthia Costa, que investiga o caso. Ontem, a delegada recolheu amostras dos produtos para análises, mas ainda depende de laudo cadavérico, do Instituto Médico-Legal (IML), para tocar as investigações. Segundo o irmão de Maria Eni, o policial militar Valdivino Silva, antes de morrer surgiram caroços na cabeça dela. A mistura de formol com cremes é aplicada em diversos salões de cabeleireiros e é popular em todo o país. Segundo a delegada, a fórmula, contida num pequeno frasco, cujo nome ela não quis divulgar, é facilmente comprada por R$ 49 e serve para até cinco aplicações, feitas no espaço de 15 dias cada uma. - Eu mesma estive até pensando em fazê-la, mas desisti por achar desnecessário, na semana passada - comentou Cinthia. A polícia recolheu frascos semelhantes ao que foi usado no cabelo de Maria Eni, no salão onde a escova foi realizada. Os produtos foram encaminhados ao Instituto de Criminalística, em Goiânia. A dona do salão, chamada Elza, e a filha Leila, devem se apresentar na próxima semana para prestar depoimento. A polícia acredita que o produto tenha uma alta taxa de formol, em torno de 20%. Em 2001, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou que os cosméticos utilizados para alisamento poderiam ter até 0,2% de formol em sua composição.

DICAS:
Ter cabelos mais lisos e com menos volume é o sonho de muitas mulheres. Por isso, a escova gradativa - também chamada de progressiva - é tão popular nos salões de beleza.
Antes de se submeter às técnicas de alisamento, é necessário tomar alguns cuidados. O uso de produtos com alta concentração de formol é proibido, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A assessoria da Anvisa informa que os cabeleireiros só podem usar produtos que contenham, no máximo, 0,2% de formol. Nessa quantidade, a substância é usada como conservante.
A exposição excessiva ao formol provoca alergia na pele, irritação nos olhos, queimaduras das vias respiratórias e, a longo prazo, pode causar câncer.
O dermatologista Valcinir Bedin, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cabelo, diz que as mulheres interessadas em alisar os cabelos não devem fazer o procedimento em casa.
O médico orienta as mulheres a avisarem os cabeleireiros se sentirem irritação nos olhos e nas vias respiratórias

20 de mar. de 2007

Estadão-domingo/março 07

Brasil campeão!

Last year, the U.S. Food and Drug Administration warned consumers to avoid Brazilian-made brand-name diet drugs Herbathin and Emagrece Sim (Get Slim for Sure) after they were found to contain controlled substances, including the active ingredient of the anti-depressant Prozac.

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A beleza por Carla

Adoro o No Mínimo, site recheado de colunistas maravilhosos e seus pontos de vista polêmicos. Entre os textos que sempre leio, estão os de Carla Rodrigues - http://contemporanea.nominimo.com.br . Única mente feminina no meio de vários homens sabidos, Carla já escreveu textos super bacanas enfocando a ditadura da beleza e suas conseqüências. Como a Real Beleza é o foco deste Blog... aí está, com vocês: Carla Rodrigues!

Sobre o verão que ora termina


No quesito saudade não tem idade, a Campanha pela Real Beleza me lembrou do tempo em que beleza era atributo natural e não mercadoria de consumo. A propaganda da Dove trouxe de fato alguma novidade nas áridas areias quentes do verão carioca. Altas, baixas, gordinhas, morenas, louras: os corpos femininos de diferentes formatos que ilustram a campanha lembram às mulheres que ser bonita não é tentar ser como a top model da vez. Momento máximo de exibição de corpos na praia, o verão é a temporada da máxima vaidade. Com o slogan “tire a canga e vem curtir esse verão sem vergonha”, os comerciais de TV valorizavam a singularidade do corpo da mulher, em movimentos que expressam liberdade. A idéia é valorizar a beleza sem impor um padrão, na contramão do que costuma fazer a indústria de coméstico, muitas vezes apontada como a ponta mais visivelmente autoritária no que diz respeito às exigências de um corpo perfeito. Nesse momento, está no ar um comercial de shampoos e cremes de cabelo que valorizam os cachos naturais, novamente na contra-mão da maldita chapinha, que forma fileiras de candidatas à gueixas japonesas, com seus cabelos lisos e uniformizados.Não sei se é possível localizar exatamente quando isso começou, mas o fato é que beleza também virou produto de consumo. Antes atributo natural de homens e mulheres, hoje a beleza é um bem de consumo como outro qualquer, que faz da indústria da estética no Brasil uma das maiores do mundo (só perde para os EUA). Tudo bem, não há nada de errado em desejar ser (mais) bonita. O estranho é que haja padrões pré-determinados para tipo de beleza: cabelos, só lisos, peitos, só grandes, corpos, só magros, peles, só bronzeadas. A psicanálise compara o anseio feminino por se adaptar a um modelo de beleza ao fenômeno da histeria, que fez Freud inventar a psicanálise no final do século 19. O grande paradoxo é que essa necessidade de se enquadrar em algo pré-estabelecido aconteça justamente quando as mulheres estão comemorando os avanços e a liberdade, mas ao mesmo tempo se submetem a imposições que alteram seus corpos. Esse seria o principal traço em comum entre anorexia e histeria: a tentativa de controle do corpo da mulher, que antes se dava através da repressão a traços tidos como naturais – a obrigação de ser meiga, doce, delicada –hoje aparece na imposição estética de beleza e magreza. Controlar os corpos das mulheres é também moldar seus comportamentos. Um dos efeitos mais perversos é derrubar completamente a auto-estima e a capacidade de valorização das suas singularidades, individualidades, personalidades. Ter um corpo é ter uma identidade e alterá-lo para agradar aos outros – sobretudo, para atender a expectativas criadas pela própria indústria da estética – é uma forma de ser menos dona de si mesma. A anorexia, doença que se caracteriza pela recusa à alimentação por medo de engordar, e a bulimia, na qual a pessoa vomita aquilo que acabou de comer, atingem principalmente as mulheres: 90% dos pacientes são meninas entre 12 e 18 anos. As pacientes de anorexia ou bulimia que chegam aos consultórios de psicanálise associam o ideal de magreza e beleza com a perspectiva de sucesso e felicidade, como se não houvesse possibilidade de construção de um sujeito individual, subjetivo, rico de vida interior, inteligência, emoção ou sensibilidade. É claro que não se pode apostar que apenas a Campanha pela Real Beleza venha a dar conta de questões tão complicadas. Mas a novidade da Dove no verão de 2006 foi jogar com todos os símbolos de sensualidade feminina – corpos, cabelos, peles morenas, praia, biquinis – para valorizar a diferença e apostar na liberdade como caminho para realização. Que venham mais verões como esse.

Beleza e auto-confiança - uma virada


Como a loteria da genérica, a beleza é injusta e alguns são mais afortunados do que outros. Confiança requer auto-conhecimento, que incluir saber de suas forças e fraquezas. Em conferência recente, ouvi uma filósofa declarar durante o almoçoo que nunca faria cirurgia plástica e que nem mesmo tinge o cabelo. Mas, confessou, pagaria qualquer coisa por 15 pontos a mais no QI. Essa mulher, que não é insegura sobre sua inteligência, muito acima da média, apenas gostaria de ser mais esperta. Pedir às mulheres que se afirmem bonitas como são é pedir aos intelectuais se afirmem como gênios. Eles simplesmente sabem que não são.
O texto é inspirado na campanha da Dove sobre a “beleza real” e apresenta um ponto de vista bastante divergente do que jáescrevi aqui. Sempre fui defensora da idéia da beleza real, não adquirida, natural. Mas a autora, Virgínia Postel, conseguiu mudar em parte meu ponto de vista.
Ser auto-confiante é muito, mas muito mais complexo do que apenas gostar de ter os cabelos cacheados ao invés de lisos ou aceitar que seus seios são menores do que os “da moda”. Reconheço que na minha posição contrária à modificações corporais extremas há, sim, preconceito contra quem dá tanto valor à aparência.

Oprimidas pelo ideal de beleza


Os modelos de beleza estão desempenhando, nesse momento, um papel impositivo, e estabelecem um ideal de feminilidade fora do qual a existência é impossível. É desse tema que trata o trabalho “De menina a mulher, impasses da feminilidade na cultura contemporânea”, da psicanalista Silvia Alexim Nunes. Doutora em Saúde Coletiva pelo IMS/Uerj, Silvia traz para o papel a experiência de uma paciente adolescente, Clara, que tem como objetivo se tornar uma mulher de sucesso. Sua principal condição para que se sinta feliz é tornar esquelético o seu corpo roliço. O corpo aparece, para Clara, como obstáculo para que ela se considere bem-sucedida, ou seja, bonita, rica e desejável. Clara supõe, destaca Silvia, que “sucesso é felicidade e, mais ainda, que ambos dependem, principalmente para as mulheres, da beleza e do cultivo do corpo”. A preocupação com o corpo feminino não é, lembra a psicanalista, novidade. Quando, no final do século 19, as histéricas lotaram o consultório de Freud e o levaram a diagnosticar os sintomas do efeito da repressão da sociedade contra a mulher, estavam se rebelando contra as regras em vigor desde o século 17. Até então, as mulheres viviam oprimidas pelo que a medicina considerava as "características naturais" das mulheres, como a fragilidade, a timidez, a doçura, a sedução e a afetividade. Das histéricas até aqui, o que as mulheres conquistaram foi, além de voz, a possibilidade de construir modelos de feminilidade que melhor lhes conviesse. A imposição que já se deu a partir da ciência se reapresenta, agora, através da estética, que tem desempenhado o mesmo papel impositivo. Silicone, cirurgias estéticas, horas por semana dedicadas a exercícios e academias de ginástica, dietas constantes, tudo isso tomou o lugar da antiga concepção de que o corpo feminino é imperfeito e de que a feminilidade é símbolo da fragilidade humana. Quanto mais as mulheres experimentam seus corpos como inadequados, mais se sentem fracassadas, impotentes, descontentes com a sua condição de mulher. O controle sobre os corpos femininos, que Silvia identifica hoje na estética, está presente desde a constituição do modelo burguês que inaugurou a modernidade, e que fez das mulheres peças fundamentais para a reprodução de uma população saudável. Mãe e mulher, aqui, se confundem, em nome de um padrão de saúde e higiene. Neste aspecto, Silvia chama atenção para a quantidade de recursos que a medicina tem criado para sumir com os ciclos menstruais, que ela interpreta como forma de apagar as marcas da feminilidade. Quando a ciência ainda não sabia explicar o que significava o sangue da menstruação, considerava que aquele momento significava um estado de impureza da mulher. Depois, a medicina do século 19 passou a considerar os ciclos menstruais como momentos em que as mulheres ficariam mais suscetíveis emocionalmente, identificando o sangramento como sinal de fragilidade do corpo da mulher. Agora, Silvia alerta, o ideal da mulher liberada é atravessar o mês inteiro sem sinal perceptível de menstruação. Silvia localiza o problema na puberdade, que é quando a ditadura da estética começa a se impor, mas lembra que esse conflito pode aparecer em outros momentos da vida da mulher – ou até mesmo se perpetuar. Na outra ponta, o envelhecimento também oferece o mesmo risco de a mulher experimentar seu corpo como “inadequado, insuficiente, imperfeito, instalando, assim, um conflito com sua feminilidade.” A forma de escapar da opressão pela beleza é, segundo ela, estabelecer uma relação positiva com o corpo, vivendo a feminilidade como forma de prazer, e não de sofrimento. Para isso, a psicanálise, defende Silvia, tem muito a contribuir. A escapatória estaria em fugir da massificação e apostar na singularidade. Não chega a ser contraditório que o mesmo tempo em que é dada à mulher a liberdade de ser como bem entender seja também o momento em que novos rigores se impõem, acirrando o conflito entre seguir as regras externas ou apostar nas marcas individuais. Se o tão criticado individualismo serve para alguma coisa, é para colocar essa possibidade – a de que cada sujeito seja absolutamente único na multidão. Ou, como disse o filósofo italiano Antonio Negri, “o pós-moderno insere a diferença como recusa ao sistema compactado do capital”. Autora de “O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha - Um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade”, Silvia apresentou seu trabalho sobre os efeitos perversos da estética numa mesa de debates realizada no evento Estados Gerais da Psicanálise, ocorrido no Rio no final de outubro, durante o qual Negri fez sua conferência.