20 de mar. de 2007

Efeito Sanfona



Minha nova heroína, Denise Arcoverde, escreveu sobre a Kistie Alley. Sei que o tal do regime dessa moça não é novidade pra ninguém, que ela tentou emplacar de gorducha na TV e não deu certo etc e tal. Mas, lendo o post, achei impossível deixar fora do De Dentro... então aí vai:


Síndrome do "estou voltando pra casa outra vez... e com vários quilinhos na bagagem"

Vocês viram a Kirstie Alley em Oprah, mostrando o corpinho com 35 quilos a menos, de bikini?

Claro que essas celebridades não podem ser muito parâmetro pra gente, já que elas têm dinheiro e tempo, à vontade, pra fazer tudo pra emagrecer. A realidade da mulher "normal", que precisa se garantir na dietazinha, fazendo milagres pra arrumar tempo pra malhar, é bem outra.
Mas, não deixa de ser um incentivo ver uma mulher de 55 anos perder o peso excessivo, que só fazia mal à sua saúde. Ela não tá magra, mas sempre teve esse estilo gostosona, pernuda e bunduda. Eu achei que ela tá maravilhosa.
Sim, porque eu falo sempre contra a ditadura da magreza, mas isso não significa que eu ache que todas nós devemos exagerar no peso, não, gente. Só sou contra a gente sofrer e se deprimir por não aceitar o corpo que tem.
Até porque nem sempre é fácil, ou mesmo possível, perder aqueles quilos a mais e não dá pra ficar "adiando a felicidade", esperando para o dia em que ficar magra. A gente tem é que arrumar um jeito de ser feliz com o peso que tem, procurando melhorar, se informando sobre a melhor nutrição, fazendo nossos exercícios, caminhadas, mas sem paranóia.
Isso me faz lembrar uma coisa que eu ouço todo ano, quando vai chegando perto do natal e as amigas, que vivem no exterior começam a se preparar pra voltar pro Brasil, para as festas de fim de ano. Nos últimos dias, ouvi de quatro amigas diferentes reações que vão da frustração, depressão ao pânico total. Começa a temporada de escrutínio...
Confesso que eu mesma respirei aliviada quando pensei que só vou ao Brasil em agosto, portanto tenho tempo para tentar perder os quilos adquiridos, em boa parte, pela combinação metabolismo lento + dificuldade pra aguentar exercícios aeróbicos (causada pela fibromialgia) e mais sem-vergonhice mesmo, andei viajando demais pra pensar em dieta.
Mas, a questão é que não era pra ser assim. Mesmo que a gente esteja se sentindo bonita, feliz com nossos corpos mais avantajados, a volta ao Brasil é sempre um terror. É a certeza das perguntas (ou comentários) inevitáveis: "engordou um 'pouquinho', né, querida?" PQP porque não aguentam ficar caladas???!!!
A gente já sabe que não existe país mais cruel para a mulher que o Brasil. Francamente, essa é uma das coisas que me deixam feliz aqui.
E olha que não é verdade que todo mundo nos EUA é obeso, não. Nos centros mais decolados, não é bem assim. Aqui em Washington, temos muitas yuppies, muitas advogadas, assessoras de políticos, muitas jornalistas, ongueiras e gente que se cuida muito bem. No meu bairro é difícil encontrar alguém realmente obesa, pelo contrário, à noite o que a gente vê é muita gente malhando, correndo pelas calçadas.
Ainda assim, a sensação é que cada um tá cuidando do seu corpo e não tá prestando atenção nos outros. Não existem aqueles olhares de desprezo que a gente vê no Brasil. Basta engordar um pouco e a gente se sente como se estivesse com alguma doença contagiosa, uma pessoa digna de pena... ou pior... é mais uma que "embuxou", "barangou"... esses termos detestáveis que vejo até mulheres usando.
Pior é que não vem nem tanto dos homens, mas das próprias amigas e familiares. Quando vou ao Brasil, se tiver mais gordinha, tem uma tia que já é avisada ela minha mãe, de antemão a se manter calada senão leva um fora inesquecível. E mesmo assim, nem sempre ela se controla.
Desde que tive Bia, virei um yô-yô. Vendo as minhas fotos, estou sempre mais gorda ou mais magra. Mas meus namorados nunca pareceram nem um pouquinho incomodados, nem meu ex-marido que tinha uma atração confessa por mulheres de formas amplas (assim como o atual).
Nem eu, francamente, me sinto mal com meus quilos a mais. Preciso emagrecer porque está passando dos limites, porque fico mais pesada e isso é ruim pra fibro, mas sempre olho no espelho e me sinto feliz com o que vejo. Respeito as inevitáveis mudanças do tempo. Além do mais não sou mulher de comer só saladinhas. Quero todos os prazeres, inclusive os da mesa.
Mas, no Brasil, por mais feliz que você esteja, sempre vai ter alguém pra lhe lembrar que você já não tem o peso e o corpinho dos 18 anos, pra lhe cobrar dietas milagrosas e sacrifícios em clínicas de emagrecimento mirabolantes. É quase como se você fosse culpada por ter engordado e devesse ser punida por isso, com uma quase humilhação pública.Francamente, precisamos acabar com isso. Proponho uma revolta, não tente ser fina, dê um fora na horinha. Se ser magra fosse sinal de felicidade a Kate Moss não vivia em reabilitação. Estou precisando perder uns bons 10 quilos e nunca estive mais feliz na vida. Façam como eu, não se intimide. Ninguém, absolutamente ninguém tem nada a ver com o que diz a sua balança.

19 de mar. de 2007

Top com Celulite!




Deu no Sindrome:
Se até a Kate Moss, ultra-magra, musa do triste "movimento ana&mia", sob o sol implacável tem celulite, tá mais que liberado, meninas, relaxem e se reconciliem com as inevitáveis ondulações nas coxas, ainda mais nas voluptuosas coxas brasileiras...
Foto: do blog Beauty Baby.

O direito das Mulheres Brasileiras



Movimento feminista moverá Ação Civil Pública contra discriminação, sub-representação e veiculação de uma imagem estereotipada da mulher nos meios de comunicação. Protestos do 8 de Março foram, mais uma vez, ignorados pela grande imprensa.
A jornalista Bia Barbosa, da Agência Carta Maior, fez uma excelente matéria analisando a péssima cobertura da imprensa no 8 de Março e informa que, "para contrabalançar este cenário histórico de discriminação contra a mulher na mídia, o movimento feminista entrará em breve na Justiça com uma Ação Civil Pública solicitando um direito de resposta aos meios de comunicação."
Ela continua:
A idéia é veicular, durante uma semana, em um horário específico e em todos os canais, um programa que retrate a mulher de maneira diferente.
“Não devemos focar o direito de reposta a um programa ou emissora específica. Em todos os canais temos o mesmo problema, de sub-representação ou de veiculação de uma imagem estereotipada da mulher. Ou somos valorizadas da maneira inadequada, quando se quer vender algo através da nossa imagem – como acontece nas propagandas de cerveja – ou somos caricaturadas. Falta um confronto maior com a realidade, que é múltipla”, explica Rachel Moreno, da Campanha Pela Ética na TV, uma das articulações envolvidas na ação.
Em um manifesto lançado este mês para a coleta de assinaturas a serem enviadas ao Ministério Público Federal, as feministas afirmam que não se reconhecem nas produções da programação televisiva. “Pior do que isso é, na maior parte do tempo, nos sentirmos vilependiadas, ridicularizadas, usadas para promover valores, padrões e produtos os mais variados, em detrimento de nossa realidade e aspirações”, dizem no texto.
“A relativa invisibilidade das mulheres trabalhadoras, intelectuais, especialistas, profissionais liberais e outras, a falta de espaço para a discussão de nossas reivindicações e ideais, bem como de nossas conquistas e das mudanças que conseguimos introduzir no mundo, perpetua a reprodução dos estereótipos limitantes que influem na formação de uma subjetividade empobrecida e resultam no rebaixamento da auto-estima das mulheres e na busca de sua afirmação através da perseguição dos modelos, valores e produtos veiculados”, continua o documento.

Leia o Manifesto das Mulheres pelo Direito de Resposta. Para assinar a petição, mande seu nome e RG para moreno@postbox.com.br.
Foto: Yann Vadaru

15 de mar. de 2007

Coisa de Mulher





Já conhece o www.maurenmotta.com.br ? Passa lá.

Contra o padrão Barbie



Conheci um blog bacanérrimo de uma menina chamada Denise Arcoverde.
Olhem o que ela escreveu:

Na minha busca por coisas positivas sobre a Suécia, descobri mais uma.
Ontem fui pra academia, fazer ginástica. Adoro malhar e faço isso com o maior prazer, desde os meus 14 anos, com algumas interrupções, é claro. As academias aqui são interessantes. Mas, depois falo sobre elas, hoje eu queria comentar outra coisa.
Fiquei observando as roupas do mulherio na academia (coisa bem brasileira!!). Elas usavam umas coisas que, no comeco me pareceram muito "esquisitas". Todas com uns camisetões e umas calças muito sem graça. Aqui, ninguém se destaca, mesmo as mais saradas. E olha que as mulheres aqui são lindas tem corpos muito bonitos... aí fiquei pensando nisso...
Não existe, aqui, a cultura de se expor, de se sobressair, as pessoas são o mais discretas que podem. A igualdade de gênero no trabalho, na política, também causou profundas mudanças na sociedade. As mulheres, de uma forma geral, têm muito cuidado em não se colocar como objetos sexuais. Ok, Ok, a gente pode até achar que isso é muito sem graça, com a nossa sensualidade latina, a gente gosta de carregar nas tintas. Mas, será que vale a pena carregar o peso e a angústia que a maioria de nós, mulheres normais, carrega por não alcançar esse padrão de beleza perfeito durante toda a vida?
As mulheres acreditam piamente, aqui, que não devem ser usadas pra vender produtos. Comercial de cerveja com mulher pelada? nem por sonho. Há alguns anos atrás, as feministas chegaram a fazer uma campanha contra os comerciais de calcinha e soutien da Hennes & Mauritz que estavam espalhados pelas ruas da cidade por considerar que despertavam angustia nas mulheres com corpos normais.
Também não existem nunca, em lugar nenhum, propagandas do tipo "Kate Moss", com modelos anoréxicas e com cara de doentes. As modelos são lindas, mas com corpos saudáveis e circunferência de braço bem maior que as desnutridas da mídia brasileira e americana. (Meu marido é nutricionista e sempre comenta, quando vê as modelos na televisão ou em revistas: "mas elas estão sofrendo de desnutrição crônica, isso é sério, onde estão os pais dessas meninas???"... hehehe...)
Ai eu fui percebendo uma coisa. Como eu estou muito mais feliz comigo mesma, aqui. Como eu não me sinto pressionada a seguir o padrão Gisele Bundchen (o que seria, diga-se de passagem, impossível hehehe...). Mais do que isso, como eu, simplesmente, nem penso nisso....
No Brasil, a cada esquina você se depara com uma gostosona pelada em outdoor, as bancas de revista inundadas bundas e peitos, cada vez maiores. E tem as novelas (perceberam como a Claudia Abreu está esquelética???), comerciais de cerveja, shows da Kelly Key... tudo bem, é legal essa nossa famosa sensualidade brasileira. Mas, convenhamos, quem de nós tem e consegue manter aquele padrão "Julaina Paes" por toda a vida? e o que acontece com o resto das mulheres que nasceram "diferentes"? ou as que envelheceram? sim, por que isso acontece, e é inevitável!
Cria-se uma histeria coletiva pela juventude e pela magreza.
Eu fui uma adolescente magra, depois da gravidez virei "yoyo"... emagreço-engordo, como a maioria de nós, brasileiras. Atualmente estou "ligeiramente acima do peso" hehehehe... mas estou feliz, me sentindo ótima e mais gostosa que nunca! mas quando eu estou no Brasil tem sempre alguém ou alguma coisa pra me lembrar que eu não sou mais a mesma dos 20 aninhos e me derrubar...
Tem sempre uma tia pra perguntar se engordei na Europa ou uma amiga que não via há muito tempo pra me encarar feito uma pessoa com alguma doença contagiosa... é exatamente isso que eu sinto no Brasil... inadequação. Uma vez, vi a Fernanda Montenegro dizendo que as pessoas falam com ela, com raiva: "mas você envelheceu muito!", como se ela não tivesse o direito de envelhecer. A gente näo tem o direito de não ser linda, no Brasil.
Ter mais de 70kg e 35 anos então, é um pecado mortal que deve ser expiado com muita lipo-aspiracão, injeção na testa e peeling que tiram sua pele viva... dignos de tortura medieval. Ninguém pode, simplesmente, estar satisfeito com seu corpo, tem que estar sempre buscando mais.
Encontrei muita menina de 15 anos sofrendo horrores por que não tem peito ou por que o cabelo não é liso como aqueles aquecido a ferro das modelos. Gente, o Brasil precisa acabar com isso! A auto-estima das nossas mulheres nunca vai melhorar se a mídia não ajudar e a sociedade não pressionar, como fez a sociedade sueca!
Enfim, claro que continuo passando meu DMAE todos os dias, ácido retinóico toda noite (sob os olhares chocados do meu marido hehehe), muita ginástica e uma dietinha de leve. Mas, tudo isso sem pressão, sem sofrimento, sem a busca de um modelo inalcançável. Gosto dos meus quilinhos a mais, eles são acolhedores. E as ruguinha são prova de que ri muito na vida e chorei também. Enfim, tive emoções. Mas, com certeza, me sinto muito mais feliz aqui por que me sinto no direito de ser o que eu sou.

Algun Fatos:

Se a Barbie fosse uma mulher real, teria que andar de quatro, por causa da proporção do seu corpo
Colocadas em fila, todas as barbies vendidas desde a sua criação iriam dar 7 voltas ao mundo.
Uma geração atrás as modelos pesavam 8% menos que uma mulher média, hoje, elas pesam, pelo menos, 23% menos.
In 1995, um estudo psicológico mostrou que três minutos olhando fotos de modelos em revistas femininas causava sentimentos de depressão e culpa em 70% das mulheres pesquisadas.
Muitas vezes essas modelos são tão magras que param de menstruar.

O peso da Fama


As pessoas são malucas por celebridades.Querem usar o que elas usam, fazer o que elas fazem e por aí vai... Nessa onda, a invasão de privacidade pode extrapolar a razão.

Olhem o que anda rolando por aí...

Já que as pessoas tem mania de comparar suas vidas com as das celebridades, porque não comparar o peso com o delas? É isso mesmo, uma loja européia chamada Angry Store está vendendo a informação de quanto pesam celebridades como Paris Hilton ou Oprah! A função serve para identificar ainda mais fãs e ídolos e custa 34 euros.
E mais:
Revista teve de pedir desculpas por dizer que a atriz queria fazer dieta ! Kate Winslet aceitou indenizaçao da revista Grazia, que há alguns meses publicou que a atriz tinha procurado um especialista em dieta. Além de se desculpar, a publicaçao reconheceu que Kate tinha procurado um medico para tratar de um problema no pescoço. A atriz vai doar a indenizaçao a uma entidade dedicada a ajudar pessoas com desordem alimentar. Kate é conhecida pelas constantes criticas à obsessao de Hollywood com as mulheres magras.

Natural e sem retoques


Gente, fui modestamente capa do Estadão deste domingo! A matéria sobre beleza real, abre os olhos de muita gente...
Segue texto:

Manequim Real
A brasileira tem a mistura de raças no seu DNA, o que significa formas generosas, por mais que ela tente negá-las

Vera Fiori

SÃO PAULO - Vai longe o tempo em que as mulheres invejavam as divas do cinema com formas exuberantes. Nos dias de hoje, as belas Claudia Cardinale, Sophia Loren, Marilyn Monroe e Anita Ekberg estariam mais para obesas do que para boazudas. Em busca de um padrão de beleza inalcançável, a mulher do século 21 é presa fácil dos estereótipos ditados pela mídia, que preconiza as medidas de tops como passaporte para a felicidade, amor, sucesso e aprovação social. A insatisfação não é só com o peso, mas também com o rosto, cabelos, seios, etc. Como aponta o psicólogo Marco Antonio de Tommaso, tendo em mente um rosto e corpo idealizados, principalmente as mais jovens entram em conflito com o espelho. “É comum ouvir no consultório que preferem ganhar uma cirurgia plástica do que um carro. A extração das costelas para afinar a cintura é um exemplo dos exageros da negação do próprio corpo e da baixa estima.”

Segundo a historiadora Mary Del Priore, a forma física é um assunto que rende desde o Descobrimento. “Já na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, há passagem comentando que as índias brasileiras eram cheias.” Vale lembrar o vaivém dos padrões estéticos na história, de formas femininas que lembravam tábuas - como na época medieval - às rechonchudas do Renascimento. Mais à frente, no século 19, a magreza era associada à doença e à feiúra. “Manuel Bandeira e Gilberto Freyre faziam referências à mulher de ancas largas como sinônimo de beleza, riqueza, abundância e fecundidade.”

Nos anos 40 e 50, as atrizes do teatro rebolado celebrizavam a mulher violão com seios fartos e coxas grossas. Nos anos 70, a emancipação feminina redesenharia os corpos. “Com o advento da pílula anticoncepcional, a entrada da mulher no mercado de trabalho e o culto ao corpo, as formas sensuais desapareceram e os quadris, diminuíram, surgindo a androginização das formas.”

Na atualidade, o modelo que predomina nas elites é o da mulher estilo Barbie: invariavelmente loira, com silicone, botox e muitas plásticas. “Imagine o que significa para uma favelada esse padrão, que nada tem a ver com a nossa mestiçagem”, exclama a historiadora.

Além da mídia, que consolida o estereótipo, outras razões levam a mulher a rejeitar a sua natureza. “É como se negássemos nossa identidade. Mas ao não desejar o padrão de nossas avós, associado à submissão, a mulher cai numa outra armadilha, que é a de se deixar escravizar pelo bisturi, tintura de cabelo e academias.” Na opinião da historiadora, o individualismo abriu espaço para a importância exagerada que a mulher vem dando à aparência, e faz um paralelo: “nos anos 80 havia movimentos feministas em prol de creches, por exemplo. Isso desapareceu e hoje a mulher pensa no próprio umbigo.”

Insatisfeitas com o que Deus lhes deu, segundo a pesquisa Real Beleza, de Dove, 19% das brasileiras associam a auto-estima à beleza; 90% querem mudar algo no corpo e 55% dizem que é difícil se sentirem bonitas quando confrontadas com os atuais padrões estéticos - como ter quadril de, no máximo, 90 centímetros, segundo regem as passarelas.

Vale lembrar que, na ânsia de perder peso, muitas fazem regime por conta própria, às vezes sem necessidade, colocando a saúde em risco. Segundo a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), o Brasil consome quase 90% das drogas para emagrecimento no mundo, o que representa 30 toneladas de anfetaminas por ano.

A discussão sobre a anorexia vem sendo tema de debates no meio fashion. No último São Paulo Fashion Week foram distribuídas cartilhas, que alertavam para a importância de uma alimentação equilibrada. Porém, de acordo com o psicólogo Marco Antonio de Tommaso, não basta chamar a atenção apenas das modelos e suas famílias. “Os estilistas, rígidos com os padrões das passarelas, foram poupados da discussão. As medidas impossíveis são uma exceção genética, e contribuíram para gerar comportamentos drásticos, como os distúrbios alimentares.” Na opinião do médico, o ideal seria a realização de um fórum interdisciplinar, no qual entrariam profissionais de saúde, educação, moda, entre outros.


Flashes nas Formas
Em 1997, a fotógrafa baiana Alice Ramos sacudiu Salvador com a exposição Redondamente Enganado, da qual participaram mulheres acima de 70 quilos, nuas, numa época em que o Photoshop (programa de computador que faz uma “plástica” nas imagens) não era usual. Com 1,59 metro de altura, 78 quilos e uma simpatia contagiante, Alice não quis fazer um manifesto ou crítica aos padrões vigentes, mas, sim, mostrar a sua visão de beleza das gordinhas. Convencer as modelos a posar para as fotos foi difícil.

- No carnaval, saí pelas ruas distribuindo panfletos, anunciando que procurava modelos para umas fotos. Vi uma menina bonita, cheinha, de top e short agarrado, e entreguei o papel para ela. O sorriso foi sumindo e, indignada, ela amassou o papel e disse: você está me chamando de gorda? O jeito foi espalhar cartazes nas docerias e salões de beleza. Deu certo e o casting com as candidatas foi lá em casa, com rodadas de brigadeiros e refrigerantes. Quando viram o resultado, gostaram e passaram a se ver de outra forma, e ainda choveram admiradores.

Alice conta que sofreu muito na fase da adolescência. “Até aceitar o meu corpo fiz dietas malucas. Mas depois desencanei. Não acho que todos os homens só querem mulheres saradas. A beleza interior também seduz”, fala ela.


Alto-Astral na Telinha

Filha de miss e pai atleta, a apresentadora Mauren Motta, a nossa garota da capa, conta que adora cozinhar, inventar pratos diferentes e receber os amigos. “Ir a um restaurante bacana e só comer alface, particularmente, acho um tédio”, brinca a loira, que já teve um programa no canal pago Multishow e participações no Fantástico. Com estilo e curvas generosas, a loirinha gaúcha já desfilou para a marca Zapping e arrasou na passarela. “Se eu tivesse nascido na Renascença, seria considerada uma deusa!” Sobre preconceito, ela diz:

-- Ser apresentadora nunca foi um objetivo na minha vida. Aconteceu e adoro o que faço. Acho que essa paixão incomoda. Quando temos prazer no que fazemos sempre há alguém que te acha feliz demais. Aí ter excesso de peso é o de menos. O que algumas pessoas não aceitam é essa felicidade, e não só o corpo fora de padrão. É uma espécie de inveja e preconceito. Devem pensar que, por ser gorda, você não tem direito de estar onde está. Mas também sei que não é um privilégio só meu. A exposição na TV nos torna vulneráveis às críticas, e aí independe da forma física. Ninguém sai ileso. Se é loira, rica e famosa taxam de burra. Se é magra, gostosa e famosa, é porque saiu com alguém. E aí vai...

Abordando a questão da diversidade, em breve Mauren deve estrear na TV o programa feminino De Dentro para Fora. “Queremos mostrar o quanto as mulheres podem ser belas além do manequim 38 e independentemente da cor do cabelo ou tipo de pele, desmistificando padrões pré-estabelecidos. A idéia é discutir uma nova plataforma para a auto-estima, mas sem perder a leveza e o humor”, adianta Mauren, que tem um site e um blog com o seu nome.


Saúde é o que interessa

Nem sempre em paz com a balança, a empresária Paula Lima de Azevedo, dona da fábrica de chocolates Sweet Brazil, fez em janeiro até promessa para não cair em tentação com seus deliciosos bombons. Morena, cabelos cacheados e com 1,72 metro de altura, ela conta que faz regime desde os 9 anos, a ponto de já ter desmaiado. “Aquela velha história, diziam: ela é tão bonita de rosto... A pessoa pode ser deficiente física, mas gorda, não.”

Paula conta que ficou pasma com a declaração de um rapaz na MTV que, ao se apresentar no programa, dizia que não era cheinho, como se a forma física fosse atributo de caráter. “Acho que falta respeito ao ser humano. Ninguém é gordo porque quer.” Aos 45 anos, se diz cansada do engorda-emagrece. “Cheguei a perder 20 quilos, corria duas vezes ao dia e consegui manter a forma por cinco anos. Mas tem uma hora em que você chuta o balde. Hoje minha maior preocupação em relação ao controle do peso é com a saúde.”


Moda inclusiva

Com ações isoladas e tímidas - ao contrário das passarelas internacionais, onde os estilistas Jean-Paul Gautier e Galliano costumam colocar pessoas comuns para desfilar suas roupas - tremula uma luz no fim do túnel fashion. Numa tacada ousada, a estilista Karla Girotto lançou no ano passado, durante o São Paulo Fashion Week, a linha De Verdade, voltada para pessoas que vão além do famigerado manequim 38 das passarelas. A inspiração veio da mãe de uma amiga, publicitária, com senso estético apurado, órfã de roupas que se encaixassem no seu temperamento de vanguarda. Hoje, a estilista desenha peças fashion, que vestem bem as cheinhas assumidas.

Se encontrar roupas estilosas já é complicado, o que dizer de lingerie? Foi a partir da experiência pessoal que a empresária Cassia Bufolin - que mede 1,60 metro de altura e tem manequim 48 - resolveu investir no segmento de lingerie sexy. Ela é dona da grife Rechonchée, na Vila Madalena, que atende numerações grandes. “As clientes falam que, antes da loja, se sentiam excluídas. Uma delas até comentou que não precisa mais usar calcinhas que se parecem com coador de café.” Calcinhas, sutiãs, espartilhos e camisolas sensuais recheiam as prateleiras da loja, que tem até um provador especialmente projetado, com dimensões maiores e ar-condicionado.

A corrida ao corpo perfeito gera lucros e, quanto mais insatisfeita a mulher, melhor para a indústria do emagrecimento. Uma crítica contundente ao padrão anoréxico veio de um homem, o maestro carioca Jorge Antunes. Em artigo intitulado Moda, Anorexia e Bobas da Corte, ele diz:

As bobas de corte e costura, enfim, são como os antigos bobos da corte: têm que se degradar, se desfigurar, se entregando ao aviltamento corporal, para deleite da alta burguesia e das classes dirigentes.